Coronavírus e a #GreveHumana

por: Alana Moraes

A pandemia do coronavírus que se alastra pelo mundo torna visível muito rapidamente um conjunto de constatações perturbadoras e ao mesmo tempo fundamentais para visualizarmos rotas de fuga das máquinas neofascistas, seus pontos de saturação – seria possível uma conexão parcial com o vírus que, ao menos, nos fizesse pensar melhor?

1) O problema da epidemia e seu poder de contágio se localizam em uma dimensão do transindividual: por mais cuidado que uma pessoa possa ter e mesmo que se esforce para seguir todas as recomendações entre lavar as mãos e evitar aglomerações (e é bom nos esforçarmos) – ainda assim, todos sabemos, estamos vulneráveis uns aos outros. Independente de opções ideológicas, nossa saúde depende de um acordo coletivo que terá mais sucesso quanto maior for o reconhecimento de nossa interdependência; Isso quer dizer que para produzirmos saúde não nos basta APENAS defender a saúde pública, precisamos entender como sustentar a saúde no Comum, entre todos.

2) O coronavírus tem o potencial de fazer emergir outras comunidades não-identitárias (ou seja, que não sejam nacionais ou religiosas); Subitamente, somos todos potenciais participantes de uma comunidade de afetados pelo vírus; uma comunidade que pode emergir, portanto, de uma vulnerabilidade compartilhada;

3) Essas duas primeiras dimensões tem emudecido os fascistas que não sabem bem como evocar um afeto de solidariedade que não seja a partir da língua do banimento e de suas fronteiras morais que hierarquizam os que merecem viver e os que merecem morrer – o corona nos faz ver que o mundo é isso que está entre todos (e não “acima de todos”).

4) Os arranjos infraestruturais das nossas cidades dependem de aglomerações, grandes fluxos de abastecimento; nosso padrão de periferias depende de grandes deslocamentos em transportes lotados: a pandemia nos leva também à reflexão sobre os limites das cidades que estamos vivendo (o que alguns já sabem e vivem todos os dias) e, portanto, precisamos levar mais a sério os debates sobre DESMETROPOLIZAÇÃO.

5) É preciso parar, mas o que significa interromper os fluxos de circulação no neoliberalismo hoje? Nesses momentos de crise nos damos conta como nosso corpo todo, disponibilidades afetivas, subjetividades, tudo parece estar conectado e trabalhando para o funcionamento da máquina. O vírus é uma sabotagem não-humana que fabrica um outro regime de sensibilidade. De repente nos damos conta de que somos um corpo e não portadores de uma “cidadania” global e desencarnada;

6) No começo dos anos 2000 um coletivo artístico sugeriu retomarmos a ideia de uma “greve humana”:
“Este tipo de greve que interrompe a mobilização total a que todos estamos submetidos e que permite que nos transformemos pode ser chamado de greve humana, pois é a mais geral das greves gerais e o seu fim é a transformação das relações sociais informais que constituem a base da dominação”.
Uma greve mais que humana, talvez; interespecífica; porque o “humano” também já deu o que tinha que dar; uma greve que parte da consciência radical de que somos todos viventes e habitamos o mesmo mundo – e se gostamos mesmo dessa nossa condição de viventes, vamos ter que aprender a sustentar uma vida comum para além das autoridades governamentais e muitas vezes contra elas.