Da investigação de problemas à construção de artefatos: política do protótipo

Na primeira metade do nosso percurso mapeamos e investigamos alguns problemas que nos tocam e que atravessam nossos territórios existenciais. Desde os preparativos para nosso primeiro encontro  (quando lançamos algumas perguntas); nas atividades coletivas realizadas (dias 1-3), e durante uma primeira experimentação de campo (dia 4), procuramos criar situações que promovessem algum tipo de deslocamento experiencial. Neste fase inicial era importante promover a criação de vínculos sensíveis entre pessoas desconhecidas integrantes do lab, e também criar algum conhecimento compartilhado sobre alguns aspectos do território e como eles nos afetam.

Agora ensaiamos outro passo. Queremos experimentar a hipótese segundo a qual a passagem de um fazer analítico-discursivo (no qual estamos muito habituados) para um fazer prático-experimental nos proporcionará outros caminhos de investigação e de modos de associação (formas de estar juntxs). Enquanto pesquisadorxs nossa aposta é que a criação de um protótipo oferecerá situações interessantes (inter-esses) de produção de conhecimentos e de ação. Denominamos essa prática de “política do protótipo”:

“Prototipar é uma prática que torna o laboratório o espaço de uma dupla experimentação: um modo de conhecer e um modo de intervir politicamente no mundo. É isso que torna o laboratório, na acepção de Lafuente e diversos grupos que atuam neste campo, um espaço de invenção política. O protótipo é aqui compreendido como expressão da passagem de uma cultura do protesto para uma cultura da experimentação” [Sobre Política do Comum e do Protótipo]

Em nosso próximo encontro (02/11) pretendemos escolher uma/duas propostas de ação coletiva que possam disparar um fazer-protótipo. Afinal, o laboratório é também o local de uma operação pragmática, onde se fabricam coisas, relações, artefatos, comunidades.

Quando nos propormos a fazer algo juntxs somos obrigadxs a resolver muitas coisas e para isso precisamos de conhecimentos e habilidades diversas. Pra começar (e talvez a mais difícil): como habitar um problema e enfrentá-lo coletivamente? A realização de algo juntx implica na necessidade de invenção de uma linguagem, acordos, ritmos e infraestruturas compartilhadas. Temos que fabricar um mundo comum e as infraestruturas que lhe dão suporte e existência durante essa ação.

Para fazer algo juntxs também somos “obrigados” a colocar em suspensão um conjunto de divergências que, no plano discursivo são infinitas. Este fazer nos convida, portanto, a uma certa generosidade que podemos denominar convivialidade. As tecnologias de produção do Comum são tecnologias conviviais!

Para este encontro precisamos levar algumas idéias/propostas de ação que possam ser trabalhadas na forma de um protótipo: uma ação coletiva provisória, tentativa, inacabada, mas que proponha experimentar no aqui-agora uma outra forma de “habitar” o território.

Uma das maneiras que propomos de fazer isso é através da invenção de algum arranjo sociotécnico: uma nova relação social, um artefato, uma tecnologia, uma forma de cuidar, uma nova rede de interações, um contra-dispositivo etc. E para criar algo temos que pesquisar o existente, os problemas, os recursos necessários, suas técnicas e regulações, os bloqueios, enfim, compreender como fazer as coisas “funcionarem” a nosso favor. Só assim podemos encontrar e fabricar brechas inesperadas, contra-dispositivos.

“o problema de cada prática é como ampliar sua própria força, fazer presente o que provoca os praticantes a pensar, sentir e agir. É um problema que pode produzir um tipo de agrupamento experimental entre práticas, uma dinâmica de aprendizado pragmático sobre o que funciona e como funciona. Um tipo de estímulo/suporte (fostering) ativo “do meio” que os praticantes necessitam para serem capazes de responder aos desafios e experimentar mudanças, ou seja, desdobrar sua própria força” (tradução nossa, Stengers, 2005, p.195).

Imaginamos uma ação em três dimensões não lineares: 1. Conhecer melhor o problema; 2. Reconhecer e mapear as potências de criação e produção do Comum já existentes: conhecimentos/saberes; práticas; espaços, pessoas; 3. Imaginar/prototipar modos de promoção/fortalecimento das potências identificadas.

Também indicamos alguns requisitos para nossos protótipos: demanda uma ação que esteja ao meu alcance, responsabilizo-me pela realização daquilo que proponho; interdependência e colaboração, uma ação que promova a cooperação dos demais participantes do laboratório; trata problemas que nos afetam e nos interpelam, e se relacionam aos nossos territórios existenciais.
No encontro deste sábado as pessoas poderão apresentar as propostas de protótipos. 

Durante a atividade, vamos trabalhar mais no esboço dos protótipos que deve conter minimamente: a descrição do problema/situação sobre o qual ele atua; a descrição das condições de sua realização, o que é necessário para ele existir, funcionar?; um plano de criação: como ele pode ser produzido?;quais conhecimentos, relações e habilidades são necessárias?

Em seguida os esboços devem ser submetidos à “prova”. A discussão aqui deve ajudar a proponente a elaborar uma visão mais complexa do seu protótipo. Uma fez realizada as apresentações devemos escolher os protótipos que melhor respondem às nossas necessidades e desejos. Evidentemente isso vai gerar um bom conflito, mas vamos nos esforçar pra criar convergências, misturas e contaminações entre os protótipos. O ideal é que possamos chegar a um ou dois projetos que poderão ser trabalhados entre todxs, evitamos assim a dispersão e mantemos um ambiente de aprendizado coletivo. 

Teremos o restante do percurso do laboratório destinado à investigação e construção dos protótipos, modelos concretos que “funcionem” (os indicadores de “funcionamento” são também decisões políticas e coletivas). O esforço de prototipar é portador de uma outra sensibilidade política. Atuar no sentido de realizar um protótipo e verificar as condições de sua viabilidade exige uma prática a favor do mundo, que acontece com este mundo. Inspirados em Simondon aprendemos a levar a sério a técnica e os modos de associação entre humanos e não-humanos:

“a tecnicidade faz parte do mundo, ela não é somente um conjunto de meios, mas um conjunto de condicionamentos da ação e de incitações à ação; por estarem permanentemente à disposição do indivíduo, a ferramenta ou o instrumento não têm poder normativo; o poder normativo das redes técnicas aumenta junto com a ressonância interna da atividade humana nas realidades técnicas (Simondon apud Ferreira, 2015, p.121).

Acredita-se demasiadamente no poder discursivo e na capacidade da mobilização ideológica. Mas o poder é sobretudo logístico, é maquínico, funcional, pragmático. Em nossas vidas o poder se inscreve e se realiza mediante dispositivos materiais-simbólicos, humanos e não-humanos. Nossas ações realizam-se com técnicas e artefatos. Cotidianamente nos confrontamos com práticas, procedimentos e tecnologias que se instalam em nossa vida como dispositivos que se apresentam como neutros (“pós-ideológicos”). Todavia, há evidentemente princípios e valores que participam das relações tecnicamente mediadas. A capacidade de captura e adesão a um dispositivo depende de sua eficácia prática e de sua capacidade de tornar-se desejável, uma arte de composição junto às disposições emergentes num campo de possíveis.

Por isso, interessa-nos essas experiências que transbordam da ação exclusivamente reivindicativa para a construção de protótipos e novos arranjos sociotécnicos. Isso não é novidade! Muitos coletivos e comunidades sempre fizeram isso e só continuam existindo como coletivos porque são capazes de reinventar continuamente as infraestruturas que dão suporte a seus modos de existência.